De todos os volumes A Divina Comédia de Dante, aquele que mais foi lido foi o volume Inferno. Embora seja possível justificar esse fato com o argumento deste ser o primeiro volume, a verdade é que as forças e mundos sombrios descritos nesse volume assustam e intrigam a mente humana. Com a primeira publicação desse blog, resolvi tratar dos seres que vivem nesse local: os demônios, especificamente os da tradição judaico-cristã. Destaco que focarei na interpretação cristã de tais entidades.
A definição para essas entidades (que embora possam ter reflexos físicos são seres espirituais) seria a de anjos que pecaram. Sua primeira menção é no livro de Enoque (um apócrifo judaico), que reconhece que os filhos de Deus, referenciados em Genesis 6: 1-4, seriam anjos, e que por terem tido filhos com mulheres humanas, eles teriam pecado. No entanto, essa passagem citada em Genesis não se trata da origem dos demônios, sendo que a origem de tais entidades só seria realmente revelada no livro de Apocalipse, capítulo 12. Nessa passagem é descrita uma guerra que ocorreu no céu, onde anjos revoltosos teriam sido derrotados e expulsos:
"Houve no céu uma guerra, pelejando Miguel e seus anjos contra o dragão. O dragão e seus anjos pelejaram, e não prevaleceram; nem o seu lugar se achou mais no céu."
Segundo a tradição, tais anjos teriam sido liderados por Lúcifer, e destaco o "segundo a tradição" pois embora certamente haja razão para a ideia de um anjo que guiou os outros em uma revolta contra o Céu e que este veio a ser Satanás, o uso do nome Lúcifer para o mesmo não tem de fato bases bíblicas. Apesar de ser um dos mais poderosos e belos anjos (sendo, dada sua importância, um Serafim), possuindo autoridade, ele desejou mais, desejou superar seu próprio pai e criador. Ele corrompeu um terço dos anjos do céu, e esses, após derrotados na guerra celestial, passaram a ser chamados de Anjos Caídos.
Uma das poucas exceções (e segundo minhas pesquisas, a única) de demônios que não estiveram ao lado do Diabo mas ainda caíram e se adequam como Anjo Caído é o anjo Bastiel, que covardemente fugiu da guerra celestial e, após ser encontrado, foi também enviado ao Inferno, tornando-se o demônio Belphegor.
Agora, retornando ao assunto dos anjos que tiveram filhos com mulheres humanas, esses também são caracterizados como demônios. Além de serem definidos como Anjos Caídos, eles têm um termo próprio que os caracteriza: Anjos Sentinelas, ou Vigias. Eles teriam vindo para a terra e aqui tido relações com mulheres humanas, sendo então foram banidos ao Inferno. Um exemplo é Azazel, que mitos judaicos antigos dizem ter apresentado armas aos humanos.
Por fim, o último tipo de demônio tem uma origem diretamente consequente ao ato dos Anjos Vigilantes de terem filhos com humanas, já que esses próprios filhos torna-se-íam demônios. Inicialmente eles foram conhecidos como Nephilins, e foram grandes e impiedosos guerreiros, responsáveis pela realidade grotesca dos tempos de Noé. Deus teria causado o dilúvio para matá-los e, desse modo, eles passariam existir apenas na forma de espírito, como todos os outros demônios.
Um fato interessante é que, apesar da queda e de terem se revoltado contra Deus, os demônios ainda são forçados a agir por ordem Dele. Tal fato é atestado em outro apócrifo, o Livro de Salomão, no qual Deus dá ao rei de Israel um anel com um símbolo incrustado: esse símbolo ficou conhecido como Selo de Salomão, e teria o poder de controlar demônios. De fato, na maior parte das tradições grimóricas tal símbolo e, mais importante, vários nomes referentes a Deus são usados como parte do que envolve invocar e controlar tais entidades.

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